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A mostrar mensagens de abril, 2024

UM TROVADOR NO CASO: JOÃO GARCIA DE GUILHADE

Na inquirição de 1258 sobre Viatodos, afirma-se taxativamente que “em Britelos, no casal que foi de D. Gontinha, criaram há pouco uma filha de João de Guilhade”. E, como o casal tinha sido da D. Gontinha de Fralães, ele andou sem dúvida pelo paço dos Correias. E andou em tempo de Pêro Pais Correia e seus filhos, Paio Peres Correia incluído. Mas as inquirições de Viatodos, Nine e até a do Louro mencionam o Reguengo da Veiga do Olho Marinho. Este reguengo estendia-se por estas três freguesias. Era certamente um vasto e fértil reguengo, nas duas margens do rio Este, “bem dividido e demarcado”, todo unido. Os que o trabalham pagavam as rendas ao mordomo real de Lemenhe e Pradaoso (isto foi dito em Viatodos). Em Lemenhe e Pradaoso, que já era julgado de Vermoim, houve queixas duras e relativas ao reguengo: “tem El-Rei aí muitas leiras de que se poderiam fazer doze ou mais casais povoados, mas os homens não ousam povoar nem receber essas leiras por medo e ameaças de muitos, a saber, Ga...

O REGUENGO DE AGISTRIM EM BALASAR

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Que sabemos sobre o Reguengo de Agistrim, que interesse tem ele para aqui? Desde há alguns séculos, em Balsar, diz-se Gestrins, em vez de Agistrim. Na origem está o nome Agistrinus. O Reguengo de Agistrim era grande e fértil e ficava a norte de Balasar; confrontava com Negreiros, Macieira, Rates e Arcos. Atravessava-o uma estrada que devia ser importante e houve nele uma pousa régia (de facto, pousa de “El-Rei, de rico-homem e de mordomo”). Há dois factos relevantes na história do reguengo: em certo período, foi administrado Reimão Peres, o genro de Paio Soares Correia, residente em Feães; e em data que também não sabemos precisar, os Cunhas, que tinham uma honra em Macieira, cresceram-na para sul, apropriando-se de terras do reguengo e para além dele, chegando até à Covilhã, que confronta com Santa Marinha de Vicente e consequentemente com Feães. Isto deu ocasião a uma contenda entre os homens da Honra de Macieira e os do Reguengo de Agistrim. Aconteceu isto antes ou depois do...

OS MARIDOS DE D. SANCHA E D. MARIA DE FEÃES, FILHAS DE PAIO SOARES CORREIA

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O nome destas senhoras ocorre no Nobiliário do Conde D. Pedro. Por mérito próprio ou por atenção à família, mas ocorre. D. Sancha casou com Reimão Peres de Vizela, “cavaleiro fidalgo, senhor do paço de Calvos (Vermoim, Guimarães) e outros bens em Guimarães” (informação colhida na Internet).   Este parece ter resido em Feães senão não haveria razões para lhe ser confiada a administração do Reguengo de Agistrim. O casamento de D. Maria de Feães com Vasco Mogudo de Sendim não parece ter resultado de uma escolha muito desejada: ele era viúvo e não tinha um passado muito louvável. Era irmã plena de Pêro Pais Correia, o pai de Paio Peres Correia, que tinha passado algum tempo no Casal (Balasar). Mas, se ela foi “de Feães”, então o casal há-de ter vivido em Santa Marinha de Vicente. Os casamentos destas filhas de Paio Soares Correia terão ocorrido por volta de 1200, talvez antes. Imagem – Balasar medieval num croqui por nós elaborado. Localiza-se Feães.

D. OUROANA PAIS CORREIA

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D. Ouroana Pais Correia e o marido fizeram ambos aquisições em Nabais, defraudando o Rei. Do marido, D. Pedro Gravel, afirma-se em 1220 que comprou um herdade de que se pagava fossadeira e nunca mais se pagou tal imposto. Mas o caso de D. Ouroana é mais interessante. Diz o latim de 1258 sobre ela: “Item Domna Ouroana, filia sua, fecit ibi tria casalia in Petra Aguzadoira que est in termino de Nabaes et non dant inde nihil Domino Regi”. Em português: Item, D. Ouroana, sua filha (de D. Paio Soares Correia), fez lá três casais na Pedra Aguçadoura, que é termo de Nabais, e não dão mais nada a El-Rei. Alguém chamou a esta filha de D. Paio Soares Correia a povoadora da Aguçadoura. Quando terá sido isto feito? Talvez aí por 1210. Em síntese, D. Paio Soares Correia, a sua filha Ouroana e o seu genro, marido dela, todos aí cuidaram de acrescentar o seu património à custa do Rei. Não há notícia deles em qualquer das freguesias vizinhas. Imagem – D. Ouroana era tia, pelo pai, de Pai...

MAIS SOBRE PAIO SOARES CORREIA

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Na inquirição de 1258 sobre Nabais encontra-se uma muito original informação sobre Paio Soares Correia. Aqui vai no seu latim: Item dixit quod Pelagius Corrigia comparavit ibi unum casale, de quo dabant Domino Regi sextam in ratione, et non habebat   ibi aliquam avolengam neque intratam, et ad mortem suam dedit illud monasterio de Varzena et de ipso casali fecerunt duo de novo. Em português: Item, disse que Paio Correia comprou aí um casal, do qual davam a El-Rei a sexta em ração, e não tinha aí qualquer avoenga nem entrada, e à sua morte deu-o ao Mosteiro da Várzea e desse casal fizeram dois novos. É esta a única vez que de modo muito directo vemos Paio Soares Correia a actuar. Já tinham passado muitos anos, mas o facto era recordado. Certamente no testamento doou o casal ao Mosteiro da Várzea, onde deve ter sido sepultado. Descendentes seus bastante posteriores, quando este mosteiro já tinha sido extinto, sepultavam-se no de Vilar de Frades. A frase seguinte identific...

PÊRO PAIS CORREIA EM BALASAR

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As propriedades que Paio Soares Correia possuía em Gresufes e Santa Marinha de Vicente deviam-se prolongar um pouco por Santa Eulália de Balasar. Tal se deduz do facto de descendentes seus terem possuído terras nesta freguesia. Aparentemente, Santa Eulália de Balasar repartia-se pelo Rei, pelos Correias de Fralães e pelos Cavaleiros do Outeiro Maior. Pode até ser que a primitiva igreja do Lousadelo tenha sido construída por estes e a do Matinho pelos Correias. Mas há um pormenor importante que liga Balasar aos Correias e em concreto a Paio Soares Correia: o seu filho, pai do Mestre de Santiago Pêro Pais Correia, viveu em criança algum tempo no lugar balasarense do Casal. Escreveu-se em 1258: “Villa Casalis que tota est onorata per Domnum Petrum Pelagii Corrigiam qui ibi nutritus fuit”. Em português: A vila do Casal que está toda honrada por D. Pêro Pais Correia, que aí foi criado. Quando terá isso acontecido? Aí por 1180, talvez. E como é que quase 80 anos depois ainda era re...

EM SANTA MARINHA DE VICENTE E SANTA EULÁLIA DE BALASAR (1220)

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Ao paço de Feães, estão ligados os nomes de duas filhas de Paio Soares Correia, D. Sancha, filha do primeiro casamento (irmã plena de D. Ouroana), e D. Maria de Feães, filha do segundo (irmã plena de Pêro Pais Correia). Segundo o Nobiliário do Conde D. Pedro, a primeira destas senhoras foi casada com Reimão Peres e teve uma filha, Maria Reimão; a segunda foi casada com Vasco Martins Mogudo, de Sendim, e também teve descendência (Rui Vasques Quaresma e Martins Vasques Gervas). D. Sancha é mencionada, em 1220, ao falar-se de Santa Marinha e mencionam-se os “filhos de Reimão Peres”. Junto a Feães, mas já em Balasar, houve um grande reguengo, o Reguengo de Agistrim, e uma Pousada Régia. Reimão Peres, que é repetidamente mencionado, administrou o reguengo (informação de 1258) e deve ter tido aí problemas com os de Cunha, que chegaram a apropriar-se de parte dele (estes parecem ter sido ladrões profissionais, tanto roubavam). Este roubo deve ter ocorrido cerca do ano 1200. Os cavalei...

E EM 1220?

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As Inquirições de 1220 são diferentes das de 1258. Os inquiridores queriam então sobretudo registar os possuidores de bens que havia no reino: os reguengos, os padroados, os bens das ordens e os foros e as dádivas. Ainda não estava em causa corrigir situações menos lícitas ou abertamente ilícitas. Não se exigia justificar direitos e para isso recuar ao passado. 1220 era tempo da juventude de Paio Peres Correia, da de alguns dos seus irmãos e da infância de outros, eram anos de Pêro Pais Correia e da sua esposa D. Dórdia. Eram também anos da idade adulta ou até já da velhice das irmãs de Pêro Pais Correia, D. Sancha e D. Ouroana e D. Maria Pais de Feães. Das freguesias que nos interessam, os inquiridores ignoraram duas, São Pedro do Monte e Gresufes, ambas importantes para este estudo. Não foram caso único, mas são caso raro. Em Viatodos, menciona-se muito de passagem o reguengo da Veiga do Olho Marinho (sem o identificar com grande rigor). Em São Salvador de Silveiros, diz-se...

AS PROPRIEDADES DE PAIO SOARES CORREIA (c. 1180)

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Embora em 1258 Paio Soares Correia já tivesse falecido há muito, é através das inquirições desse ano que podemos formar uma ideia das propriedades que possuiu no canto sudeste do Julgado de Faria. Não é de excluir que possuísse propriedades noutras terras. Parece que os seus bens fundiários deste julgado podem ser reunidos em dois conjuntos, um ligado imediatamente à Casa de Fralães, outro ligado a uma segunda casa, a de Feães, em Santa Marinha de Gondifelos. Em Monte de Fralães, possuía a totalidade da freguesia; em Viatodos uma parte significativa dela; em Nine e em São Salvador de Silveiros algumas propriedades. Possuiria além disso e bastante mais longe, na freguesia hoje poveira de Nabais (no lugar da Aguçadoura, hoje freguesia e ate vila) também algumas propriedades. O conjunto de propriedades na proximidade de Feães poderia não ser de menor vulto que o de Fralães: incluía a totalidade de Gresufes, parte Santa Marinha de Vicente, onde ficava Feães, parte de São Veríssimo (d...

OS CASAMENTOS DE PAIO SOARES CORREIA

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Como já se viu, o “Nobiliário do Conde D. Pedro” diz que o primeiro dos “Correãos”, isto é, dos Correias, foi Paio Ramiro, casado com Urraca Hueres. Sucedeu-lhes o filho Soeiro Pais Correia, que terá vivido ainda em tempo do Conde D. Henrique e foi pai de Paio Soares Correia. Afora a repetição dos nobiliaristas antigos, nada mais consta destes avô e pai de Paio Soares Correia. E o nome de Soeiro Pais Correia anda envolto em lenda. Paio Soares Correia é assim o primeiro Correia inegavelmente documentado. Casou duas vezes, primeiro com D. Gontinha Godins e depois com a D. Maria Gomes da Silva. D. Gontinha Godins, apesar de já ter morrido há muitas dezenas de anos, é mencionada em 1258 nas inquirições de Viatodos e de Nine. Em Viatodos e Nine menciona-se uma herdade de D. Gontinha e em Viatodos uma quintã de D. Gontinha. Até porque D. Paio Soares Correia tinha em Nine uma honra de pousada e parte de Viatodos se integrava na Honra de Fralães, trata-se com certeza de D. Gontinha God...

ONDE FICAVA A CASA ORIGINAL DE FRALÃES?

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Felgueiras Gaio copia esta citação da inquirição de D. Dinis sobre Monte de Fralães: “Item, a freguesia de S. Maria de Farelães, o Paço que foi de Paio Correia o Velho é provado que o viram honrado, etc. Fique honra como está”. Ainda cá vem Paio Correia o Velho, que deveria ter morrido um século antes. Como é improvável que o paço referido ocupasse o lugar em que está o actual Solar de Fralães, o lugar alternativo ficaria na encosta do monte onde houve o lugar do Paço. Existiu lá uma construção que remonta à época da dominação romana. Mas pensamos que é o lugar que melhor se ajusta para ser o paço medieval. Se a freguesia era do monte, ele não ficava na planície. Imagem – Trecho de muro no lugar do Paço que pode ter pertencido ao paço medieval dos Correias.

OS PADROADOS DE FRALÃES

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Para criar uma paróquia não bastava uma povoação (frequentemente, uma vila rústica), uma igreja e um sacerdote, eram ainda precisos um dote e um padroeiro. O dote sairia das propriedades dos maiores terratenentes do lugar e o padroeiro tinha de ser alguém poderoso. E porquê? Porque então se roubava muito e era necessário quem garantisse a segurança da paróquia contra outros poderosos. As paróquias antigas do Norte de Portugal já são conhecidas no Censual do Bispo D. Pedro (de cerca de 1090, recorde-se) e no geral teriam sido criadas ainda no século X. O “Nobiliário das Famílias de Portugal”, de Felgueiras Gaio, diz que os Correias de Fralães foram padroeiros da sua freguesia e da de Viatodos. Implica isso, parece, que já nessa altura a família fosse relevante. Também devem ter sido padroeiros da freguesia de Gresufes, de que havemos de falar. Como não possuímos qualquer documento original que garanta a história anterior da família dos Correias, esses padroados podem, a seu modo...

PAIO SOARES CORREIA: CONJECTURA SOBRE DATAS

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Quando Felgueiras Gaio afirma que Paio Soares Correia “foi rico-homem do rei Afonso VI de Castela e pessoa principal da sua corte” e que “passou a Portugal com o Conde D. Henrique”, supõe-no mais velho do que aqui o imagino. É hoje mais ou menos consensual que o Mestre de Santiago Paio Peres Correia nasceu cerca de 1205. Implica isto que o seu pai, Pêro Pais Correia, tenha nascido cerca de 1185 ou um pouco antes. Como este é filho de segundas núpcias de Paio Soares Correia e a mãe casou de novo e voltou a ter filhos, ela há-de ter estado casada com ele pouco tempo pelo que ele terá falecido antes de 1190. O seu primeiro casamento terá ocorrido por volta de 1160 e o seu nascimento por volta de 1135. Isto são conjecturas mas alguma ajuda fornecem para orientar a exposição. Se ele tiver de facto nascido por volta de 1135, só pode ter acompanhado D. Afonso Henriques na final do seu reinado. Mas algum papel militar e político de relevo lhe devem ter cabido visto o que se pode apurar s...

AS HONRAS DE PAIO SOARES CORREIA

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D. Paio Soares Correia deve ter nascido aí por 1130 ou 1140. Terá sido assim contemporâneo da meia-idade e da velhice do rei D. Afonso Henriques. Parece ter sido um homem prestigiado e, para isso, abastado. Teve “honras” em várias freguesias. Sobre honras e coutos, veja-se o que vem na Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Honra_(circunscri%C3%A7%C3%A3o) A Honra de Fralães estendia-se por toda a pequena freguesia de São Pedro do Monte, mas prolongava-se ainda por Viatodos. A freguesia de Gresufes, depois integrada na de Balasar (concelho da Póvoa de Varzim), era toda honra sua. Mas muito curioso foi o que se passou com a freguesia de São Veríssimo, depois integrada na de Cavalões (concelho de V. N. de Famalicão). Em 1258, disse-se dela que “toda esta paróquia é honra do ilustre Rei D. Afonso Henriques ou honra de D. Paio Correia”. Enquanto as honras de Gresufes e São Veríssimo terão sido extintas logo nos séculos XIV ou XV, a de Fralães sobreviveu até ao Liberalismo, perdend...

D. PAIO SOARES CORREIA

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Nas Inquirições de 1258, afirmou-se de São Pedro do Monte que toda a freguesia era “honra antiga de D. Paio Correia”. De outra freguesia não muito distante diz-se que é “honra antiga de D. Paio Correia o Velho”. Trata-se da mesma pessoa, do avô do Mestre de Santiago Paio Peres Correia. Conhecido como  Paio Soares Correia, este senhor de Fralães já teria morrido há mais de 50 anos, mas os seus descendentes recordavam-no como um antepassado distinto, notável, com algo de fundador. Pode ter sido ele que conseguiu alterar o nome da freguesia, desligando-a de Silveiros (onde certamente ele possuiu propriedades – possuiu-as lá uma filha). Paio Soares Correia foi sem dúvida um homem ilustre e é conhecido do “Nobiliário do Conde D. Pedro”, do século XIV. Deve ter sido sepultado no Mosteiro da Várzea, a quem deixou ao menos uma propriedade. Imagem – Neste fragmento duma cópia manuscrita do “Nobiliário do Conde D. Pedro” (séc. XIV), menciona-se Paio Soares Correia o Velho.

A PROPÓSITO DA INQUIRIÇÃO DE 1258

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O monte d’Assaia estende-se no sentido norte-sul por cerca de três quilómetro, tendo na sua máxima largura cerca de um. Não é muito alto (algo como 200 metros), nem remata em píncaro agudo. Pelo contrário, depois de se subir a encosta até há lá a chamada Chã do Monte, a planura que era terreno reguengo. Mas, mesmo para além da Chã, o cimo não é alcantilado. Embora não devesse ser muito cultivável, a dificuldade maior para quem vivia na Cividade de Lenteiro seria a do abastecimento da água, apesar da Fonte Peolhosa. Pode-se afirmar com razoável segurança que foi um espaço que o jovem Paio Peres Correia conheceu bem. A Cividade chegava a ter três cinturas de muralhas e não era uma povoação propriamente pequena. Muito curioso o topónimo Valo do Capítulo: que podia significar ali a palavra capítulo? É também curioso que se assinale um fojo lobal, uma armadilha para caçar lobos ali próxima dos muros da povoação. Durante muitos séculos e até meados do XIX, toda a área do monte foi maninha, d...

A INQUIRIÇÃO DE 1258

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Em 1258, Paio Peres Correia era um homem célebre em Portugal e Castela. Teria já mais de 50 anos e deveria residir em Uclés, donde administrava a poderosa Ordem de Santiago. Mas, uma vez por outra, não deixaria de recordar a sua terra natal de São Pedro do Monte e os tempos de infância e juventude que lá passara. Veja-se o que escreveram sobre essa terra os inquiridores desse ano: "D. Mendo, abade da dita igreja, jurado e interrogado, disse que El-Rei não é padroeiro, mas tem aí o seu reguengo, a saber, o monte da Saia, delimitado pela porta da cidade de Lenteiro, a seguir pela pedra que está entre o reguengo e a senra, a seguir pela Fonte Peolhosa, a seguir vai pela Valo do Capítulo até à Bouça, a seguir até ao Fojo Lobal, a seguir pela porta da Ventosa. Do reguengo agora nomeado, metade é de El-Rei e dão dele a El-Rei a quarta parte do pão e quem aí trabalhar dá um capão com 20 ovos; e chamam o mordomo de El-Rei para recolher o pão. Disse que nesta colação não dão a El-Rei fossa...

ANTES DE SÃO PEDRO DO MONTE

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Há uma tese de doutoramento defendida na Universidade de Coimbra que tem por título “O Bispo D. Pedro e a Reorganização da Arquidiocese de Braga”. O estudo assenta sobretudo num censual bracarense de cerca de 1090. Nesse documento, a freguesia de São Pedro do Monte não é mencionada, mas é mencionada uma sua antepassada: chamava-se São Cristóvão de Silveiros. Silveiros era uma vila rústica, logo a norte da actual Monte de Fralães e no sopé do monte d’Assaia. Teve aí assento a freguesia de São Salvador de Silveiros e a seu lado a de São João de Silveiros. Há até um documento em latim do ano de 965 que fala de Silveiros. Por esse tempo, deveriam estar a ser organizadas as paróquias das proximidades, mas o documento não as menciona (nesse tipo de documentos, elas só ocorrem mais tarde). Nada mais se sabe da antiquíssima paróquia de São Cristóvão de Silveiros.  Imagem - Outra pedra ornamentada (com entrelaçado) que veio da Citânia de Lenteiro.

SÃO PEDRO DO MONTE

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Porque é que a sede da paróquia original de São Pedro do Monte foi localizada no cimo do monte d’Assaia se havia tanta área plana e próxima? Conservam-se memórias muito antigas da ocupação humana no monte d’Assaia, mas, para este caso, o que interessa é que houve lá um povoado castrejo. É possível que ao tempo do domínio romano ele fosse parcial ou inteiramente abandonado. Mas mais tarde voltou a ser habitado. Dizem-no-lo sem margem para dúvidas as Inquirições de 1258, quando, falando de São Pedro do Monte, mencionam o monte d’Assaia, a “porta da Cividade de Lenteiro” e ainda a sua “Porta da Ventosa”. A Igreja Paroquial estava sem dúvida lá. E se a freguesia era São Pedro do Monte, também a Casa dos Correias deveria ficar no monte, talvez na sua encosta.

DE SÃO PEDRO DO MONTE A MONTE DE FRALÃES

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Desde o século XIII, ao menos, a freguesia de Monte de Fralães chamou-se São Pedro do Monte. Em séculos mais recentes, passaram a chamar-lhe “São Pedro do Monte de Fralães”, por toda ela pertencer aos Correias. Ainda mais recentemente, suprimiram-lhe o nome de São Pedro e ficou a ser conhecida, como é na actualidade, por Monte de Fralães. A freguesia era realmente “do Monte” até ao ano de 1561, quando a Igreja Paroquial foi trasladada do cimo do monte d’Assaia para junto da Casa de Fralães, no fundo da encosta. Mas essa pequena igreja hoje não existe… A Igreja Paroquial actual, ampliada no século XVIII, foi em tempos capela particular dos Correias… E onde ficava a casa original dos Correias de Fralães? Deixemos para mais tarde a resposta a esta pergunta – a resposta possível.  Imagem – Esta pedra, com o seu símbolo solar em trísceles, como algumas outras que se guardam em Monte de Fralães, veio do monte e recorda o passado celta de Monte de Fralães; há-de ter pertencido ori...

RECUAR NO TEMPO

Os genealogistas antigos afirmavam sem hesitação que o Mestre de Santiago Paio Peres Correia descendia dos Correias de Fralães. Mas entre os autores mais recentes essa certeza perdeu força. Sem a negarem, vê-se que pouco crédito lhe reconhecem. Será possível continuar a garantir a afirmação antiga, voltar a dar-lhe aceitação? Em absoluto, certamente que não, mas é possível reconhecer-lhe de novo uma dose grande de probabilidade. A freguesia de Monte de Fralães fica a norte do Porto, mais perto de Braga, e pertence ao concelho de Barcelos. É natural que a história desta freguesia não seja fácil de deslindar relativamente aos recuados séculos XII e XIII, que são os que aqui interessam. E há particularidades da história dela que tornam a tarefa ainda mais difícil. Vamos tentar conhecer alguma coisa dessa história para ver como seria a freguesia ao tempo desses Correias antigos. Veja-se a localização de Monte de Fralães no mapa que acompanha o artigo que a Wikipédia dedica à fregu...

INÍCIO

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Garantir com a maior segurança possível o quadro dos dados que tornam plausível e provável a afirmação da naturalidade fralanense do conquistador peninsular e cristão do século XIII Mestre de Santiago Paio Peres Correia é uma questão que interessa a muita gente. E é normal que surjam alguns dados novos e que a reflexão sobre eles faça mais luz sobre este aspecto em particular. Eu já tinha um blogue mais genérico sobre Paio Peres Correia ( https://paioperescorreia.blogspot.com/ ). Neste tratarei apenas da sua naturalidade, alargando bastante aquilo que lá apresentei. Manuel López Fernández tem vindo a falar do Mestre Paio Peres Correia aos seus conterrâneos de Calera de León, onde o conquistador foi sepultado: https://www.facebook.com/manuel.lopezfernandez.3576 . É por sugestão sua que inicio esta página. Imagem - Retrato português, do século XIX, de D. Paio Peres Correia. A armadura não condiz com a usada no século XIII.